O canário (nome científico Serinus canarius domesticus'), conhecido popularmente como canário do reino ou canário belga, é um pequeno pássaro canoro, membro da família Fringillidae, pertencente à classe dos Passeriformes (Sick, 1997). Este pássaro é descendente de exemplares originários principalmente das Ilhas Canárias, daí “canário”. O nome das ilhas vem da palavra em latim ''canaria'' que significa "dos cães", já que, segundo relatos, os romanos encontraram ali muitos cães selvagens.

 

O pássaro ancestral, selvagem, possui um comprimento total de 12,5 centímetros um comprimento de asa de 71 milímetros. A sua plumagem possui coloração em tons esverdeados e amarelados, com a parte inferior do ventre de cor clara. As fêmeas possuem cores menos vistosas, e tonalidade mais parda - amarronzada, sendo também menos brilhantes.

 

 O início do fascínio do homem por estes animais é antigo: descoberto em 1402, o canário logo encantou seus descobridores pelo seu canto e vivacidade, e teve sua domesticação nos anos consecutivos ao seu descobrimento. Os canários, tal qual  conhecemos hoje, difundidos por todo o mundo, são, portanto, resultado de mais de 600 anos de seleção e criação em cativeiro. Estes canários não existem na natureza, e são incapazes de sobreviver no ambiente natural, estando plenamente adaptados às condições de criação em gaiolas, como as atualmente utilizadas.

 

Existe um passeriforme sul-americano de aspecto semelhante ao canário (tamanho e cor), porém não é da mesma espécie do canário (Serinus canarius). Estes canários nativos da América (geralmente da espécie Sicalis flaveola, membro da família Emberezidae) eram levados por piratas e navegadores como presentes aos reis europeus. Esta espécie, que ocorre também no Brasil, é conhecida como “canário-terra” ou “canário-da-terra-brasileiro” (Sicalis flaveola brasiliensis), e recebeu este nome popular para fazer uma contraposição ao canário que vinha “de fora” (do antigo “reino”, alusão feita à Europa nos tempos do Brasil colonial). Assim, têm-se o canário-da-terra (Sicalis flaveola brasiliensis) e o canário do Reino (Serinus canarius), duas espécies distintas. O canário da terra, bem como outros pássaros considerados da fauna nacional, são protegidos por legislação vigente em nosso país, sendo permitido tê-lo em cativeiro apenas com registro de criação e autorização do IBAMA, e os pássaros devem ser nascidos em cativeiro e portar anilha conforme exigido pelo órgão (para maiores informações, visite  www.ibama.gov.br/sispass).

Já o nome ''canário belga'' faz alusão os primeiros canários importados para o país, provavelmente de origem Belga, já que a Bélgica é um tradicional país na criação destas aves, sendo estes primeiros canários importados os possíveis ancestrais da raça de porte hoje conhecida como Bossu Belga.

 

A distinção entre sexos, a princípio, é complicada, porém, com um pouco mais de experiência, deixa de ser um bicho de sete cabeças. Primeiramente, a diferença mais marcante é que, em condições normais, todos os machos costumam cantar, principalmente durante o período reprodutivo. Nesta mesma época  é possível identificar o sexo destas aves pelo formato do abdômen. Os machos possuem uma protuberância a 45º na região da cloaca, denominada espigão, enquanto as fêmeas possuem abdômen arredondado ou abaulado. Em algumas cores, como mosaicos e feos, por exemplo, pode-se distinguir o sexo de acordo com a coloração, pois estes canários têm uma maior tendência a possuírem dimorfismo sexual. As fêmeas no geral possuem cor menos brilhante e intensa.

 

MACHO:

 

 

FÊMEA:

 

 

 

 

No Brasil, o período reprodutivo vai de Setembro à Dezembro, dependendo das condições climáticas e ambientais. A postura é normalmente de quatro ovos com casca esverdeada ou azulada, com pequenas manchas marrom-avermelhadas. O período de incubação é de 13 dias, sendo a fêmea quem cuida dos ovos e ninho. O macho não colabora na incubação, mas quando os filhotes nascem, ainda com os olhos fechados e sem penas, ele auxilia na alimentação dos mesmos. A plumagem começa a surgir por volta dos 7 dias de idade, e os filhotes abandonam o ninho normalmente com 18 a 20 dias, permanecendo dependentes dos pais até os 35 dias de idade, principalmente no que se refere à alimentação – após esta idade, passam a se alimentar por conta própria. Um casal em boas condições pode ter entre 3 e 4 crias em um ano, não sendo recomendado número maior que este pelo desgaste excessivo e comprometimento das condição física dos animais. Recomenda-se então separar o macho da fêmea, para que estes possam recuperar seu vigor físico durante este período, que pode ser denominado de descanso reprodutivo, e realizar a muda de penas.

 

Uma vez ao ano, os canários, bem como ocorre com outras espécies de aves, realizam a muda de penas, período em que a ave troca gradativamente sua plumagem, um processo fisiológico e normal, necessário para a renovação das penas danificadas e para descanso reprodutivo. No Brasil, geralmente esta fase ocorre entre os meses de Março a Junho, dependendo das condições climáticas e ambientais. Uma boa alimentação é fundamental também nesta época. Mantendo o pássaro em um local abrigado de correntes de vento, frio ou umidade excessivos, além de uma boa higiene e limpeza constante de gaiola e acessórios, geralmente o pássaro passa por esta fase sem maiores problemas. Algumas doenças ou distúrbios podem induzir ou alterar a duração e o curso natural da muda de penas.

 

Durante os mais de 600 anos de criação em cativeiro, os canários foram sendo selecionados pelos criadores de acordo com suas preferências pessoais, concomitantemente com a ocorrência de algumas mutações, que foram sendo fixadas, chegou-se à grande variedade de cores, formas, raças e estilos de aves com a qual nos deparamos hoje.

 

Na canaricultura atual, considera- se que há três grandes grupos:

*canários de cor;

*canários de porte;

*canários de canto clássico.

 

Tal separação é feita com base nos critérios de seleção empregados, visando os predicados que são considerados como mais desejados em cada um dos três grupos.

 

Os canários de cor, pela classificação da FOB (Federação Ornitológica Brasileira)/OBJO (Odem Brasileira de Juízes de Ornitológia), contam hoje com quase 500 cores, agrupados basicamente, de acordo com a presença ou ausência de melanina na plumagem, da seguinte forma: canários da linha clara (sem melanina na plumagem - brancos, amarelos ou vermelhos) e canários da linha escura (presença de melanina na plumagem - verdes, cobres, canelas, feos, acetinados). Também podem ser agrupados de acordo com o lipocromo em canários sem fator vermelho (brancos, amarelos, verdes, azuis) ou canários com fator vermelho (vermelhos, cobres). O lipocromo vermelho, que não é patrimônio genético original do canário, foi introduzido por meio da hibridação de canários com o Pintassilgo Tarim da Venezuela (Carduelis cucullata).

 

Segundo o Manual de Julgamento dos Canários de Porte da FOB/OBJO, são cinco os grupos de porte, com cerca de quarenta e cinco raças reconhecidas em nosso país. Dentre elas, existem raças com penas frisadas (Frisado parisiense, Fiorino, Gibber ittalicus, Padovano), raças de topete (Gloster, Lancashire, Topete alemão), raças de postura (Scotch fancy, Hoso japonês, Bossu Belga), raças de formato (Border, Yorkshire, Norwich, Raça espanhola) e raças de desenho (Lizard). Existem raças não reconhecidas em nosso país, porém criadas na Europa (Mheringer, Arlequim Português), Estados Unidos (Stafford Canary), assim como em outros países.

 

Dentre os canários de canto clássico, existem diferentes linhagens: Harzer Roller, Malinolis, Timbrado espanhol, Waterslager e Cantor americano. No Brasil, tais canários não são muito freqüentes e quase não são encontrados à venda, sendo o mais comum o Harzer Roller. Existe ainda a confusão de chamar-se os canários de cor e porte como sendo "rollers", porém os verdadeiros rollers possuem característica de cantar com o bico fechado, e são canários com canto baixo, porém muito suave, melodioso, e “rolado” -  daí a origem de seu nome. Mesmo assim, poucos criadores se dedicam a esta variedade de canários, que até alguns anos atrás era considerada como uma categoria “em extinção” aqui no Brasil, devido ao pequeno número de admiradores destes canários em nosso país (ao contrário do que ocorre na Europa, onde são muito apreciados e valorizados).  Felizmente, um pequeno grupo de aficcionados pelos canários de Canto Clássico continuou criando e selecionando estas aves, e atualmente já podem ser encontradas e admiradas em concursos.

 

 

 

Autor: César Wenceslau – Estudante de Medicina Veterinária da FMVZ/USP. Criador do canários de cor e porte.